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O QUE ACONTECEU COM O CARNAVAL?

No meio das proibições politicamente corretas, funk ostentação e bloquinhos lotados, a Panela lança seu mais novo álbum de carnaval relembrando o tempo das marchinhas

por Tauany Cattan

Abram alas e ouvidos! Próximo à ladeira da Purpurina, e no meio de tanta serpentina, a Panela Produtora, que completou 11 anos no dia 1º de março apresenta: É Carnaval. 12 faixas que resgatam a tradição das marchinhas, relembrando a diversão de outros carnavais e provocando reflexões através das letras irônicas e cheias de lirismo e humor.

Entrevistamos o maestro que criou os arranjos de sopros, Nailor Aparecido Azevedo, 58, conhecido como Proveta

Músico precoce, aprendeu saxofone aos 7 anos, clarinete aos 12, e compunha os primeiros arranjos aos 9. Tocava em sua primeira banda em 1976, quando nasceu o 1º bebê de proveta, por isso Nailor ganhou o apelido que o acompanha até hoje. Filho de um pedreiro, Geraldo Azevedo, que tocava saxofone, acordeão e clarinete, e da dona Eufrosina, o musicista nasceu em Leme, interior de São Paulo, onde morou até os 17 anos. Em 1980, mudou-se para a capital, onde fundou a big band chamada Mantiqueira, que já passou por Detroit, Londres, Michigan, e Nova York, quando em 1998 e 2000 foi indicada ao Grammy. A banda tem 30 anos e continua ativa.

Para quem fala o disco?

Para Proveta, é o povo falando com o povo, já que o Carnaval é uma festa popular, mas de uma maneira doce e poética. “Eles não podem perder o brilho, os confetes, serpentinas, afinal de contas é a festa deles! É a hora de extravasar, do povo contar o momento dele. Ô jardineira por que estás tão triste? é uma poesia. Isso abraça as pessoas.” Para ele as músicas de hoje rebaixam e não elevam o sentimento popular. Este disco tenta fazer o contrário.

Todas as músicas são originais, assim como as letras e arranjos e o espírito é o das tradicionais marchinhas de carnaval. Algumas músicas mencionam seus mais famosos personagens: a Jardineira, Chiquita Bacana, Zezé, Mulata bossa-nova, Pierrot, Arlequim, e outros. 

Segundo Daniel Galli, 40, compositor de 9 músicas incluídas: “o disco tem inquietação, vontade de resgatar a poesia do carnaval, necessidade de fazer música boa e descompromissada, com bom humor; dar uma banana para o politicamente correto e nos divertir fazendo o que a gente gosta. As marchinhas sempre tiveram essa irreverência, essa capacidade de falar sobre o espírito alegre do brasileiro, mas sem perder o lirismo”. 

Proveta enfatiza que o carnaval tem de ter humor, mas também tem uma coisa trágica, e o disco consegue desfilar por todos esses sentimentos. “As letras são incríveis. Tem tudo a ver com o carnaval. Você olha uma situação e devolve uma música pra pessoa.”

O maestro revela seu processo para compor os arranjos. A Carnaval na Sibéria, por exemplo, segundo ele, possui notas escuras e graves, de estilo “wagneriano”. A letra fala de um personagem que odeia o carnaval. Diante disso, Proveta precisou adornar a música com a flauta e o clarinete. “Você precisa colocar um contraste. Como você resgata o cara que tá lá? Precisei colocar uma coisa brilhante. Uma serpentina voando, porque ainda tem esperança para o personagem”.

A mais difícil para o saxofonista foi Quarta-feira, que cita Sansão e Dalila, cujo personagem embriagado percebe que acabou se envolvendo com um homem no carnaval. “O acorde é um meio diminuto, que é típico do Wagner (Richard Wagner, compositor do romantismo alemão). E como você salva o personagem que está em depressão? Coloquei uns instrumentos mais graves, mas complementei com uma camada de clarinetes e flautas nos médios. Cada instrumento tem um sofrimento e grave é lugar de dor. Mas a dor do contrabaixo é menor do que a da flauta, por exemplo. Eu tive que fazer dobra de ‘cores’, como um camaleão. Achei demais o resultado”, conta.

O que aconteceu com o carnaval?, última música do disco, foi a mais rápida para Nailor. “É um cara contando uma história, mas tem uma turma [instrumentos] do lado jogando ele pra cima. É uma turma que lembra ele ‘olha tem mulata bossa nova, tem hully gully, tem mamãe, eu quero’. Foi a que eu resolvi mais rápido porque já tinha informação nela. Ninguém brigou pra responder essa pergunta do título, os personagens estavam felizes falando disso, tocando trechos de marchinhas”.

O que aconteceu com o arranjo?

“Meu pai foi o primeiro grande orquestrador da minha vida. E ele me disse a coisa mais linda que já ouvi: ‘você precisa aprender a fazer um arranjo. Tem que vestir a música com a melhor roupa, melhor tecido e cor. Não pode apertar a música, e sufocá-la, tem que deixar mais solta’. É isso um arranjo. E hoje, tiraram a roupa das pessoas, estreitaram, estão usando roupas apertadas – às vezes, até nenhuma. Achatou-se tudo. A música se resumiu a dois acordes e batida”, Proveta diagnostica e completa dizendo que o CD da Panela dá roupa para as pessoas.

Em muitos bloquinhos de carnaval, os estilos de música dominantes são o funk e o sertanejo, algumas vezes o axé. “Existem mais informações, cores e coisas saudáveis pra gente ver, ouvir, conversar. Hoje, esse meio jovem não tá errado, tá desinformado. Falta conexão com a tradição da família, que se perdeu”, enfatiza o músico. Ele acredita que há uma euforia exagerada, e propositalmente provocada. Para ele, não existem mais compositores como Pixinguinha, Braguinha, Lamartine Babo. “O funk e o sertanejo viciantes te jogam lá em cima num adjetivo extremo, depois você tem que ir lá embaixo. É tum tum, só. Foi tirada a roupa geral das pessoas. Tinha muita coisa trash já naquela época, que movia o mercado. Mas hoje, perdeu-se totalmente a pureza”, lamenta.

É proibido proibir?

Teu cabelo não nega, cabeleira do Zezé, Maria Sapatão foram algumas das marchinhas praticamente proibidas pela pressão politicamente correta em blocos de carnaval. Diante disso, o CD É Carnaval brinca com questões sociais contemporâneas e cita justamente as letras politicamente incorretas para provocar e lembrar que o sentido do carnaval é subverter a ordem. Segundo Proveta, o carnaval era a festa do homem comum e as músicas refletiam isso. “Sempre quando fazia carnaval, eu não tava pensando que aquilo fosse acabar. Achava que era uma festa daquelas pessoas. Já tinha um cara ferrado ali, já tinha o Zezé da cabeleira, e a gente trazia essas pessoas pro palco. Quantas não estavam ali com as suas questões? O cara fazia a marchinha disso”. E continua: “a música é uma ferramenta, (…) ela pode ser um lugar que você vai lá resgatar as pessoas”. Ele diz que também há o elemento político nessas situações, mas que prefere se preocupar em refazer o que é bonito.

Tem conserto?

“A preocupação é continuar a história. Eu tinha o seu Pipe, que tocava sax e levava a gente pra SP antes de eu morar lá. Tinha o seu Ari que cuidava da banda e me ensinou a ler a música e meu pai que me ensinava a ouvir. Era a santíssima trindade. Eram mecenas. Você tem a referência de como fazer, e por isso virei o que virei. Você precisa estar dentro de um lugar para ser salvo. Eu guardei as coisas que me eram emocionantes, ou o cara faz algo bonito, ou algo não bonito. Tem muitos blocos hoje mas o que eles vão fazer? O que fazer para o cara continuar ali? A referência que tenho do carnaval era de pessoas que entravam nos salões e estavam continuando uma história do pai, do avô, do Braguinha, de compositores que conheciam. E que carnaval é esse agora? É um ‘pré-carnaval’ de funk e tal. Essa meninada poderia conhecer um pouco dessa história que aconteceu.” afirma.

Proveta conta que o processo em que participa está funcionando, principalmente nas aulas que ministra no Ibirapuera, em São Paulo. Acredita que as referências tradicionais até da própria família do aluno, ou do jovem, são uma forma de recuperar os arranjos e letras.

Por fim, o que é a música e o carnaval?

“Música é um resultado de tudo que você percebe na sua vida. É uma emoção. Memória das melhores coisas que você teve, ou mesmo as piores, pois o que é ruim fica muito pequeno perto do que é bom. Músico é aquele que sabe as medidas certas para cozinhar, e preparar o prato para quem vai ser servido; ele organiza o som e prepara o prato para servir”, diz.

Para ele, o carnaval era algo que vestia as pessoas além das fantasias, como forma de deixá-las no melhor lugar naqueles dias de comemoração. “Tem que colocar o sujeito no melhor lugar, com o melhor pano e precisa ser colorido. O carnaval é aquilo tudo que você tá clamando que dê certo e algo do qual você faz parte. Algumas pessoas estão esperando isso o ano inteiro.”

Por fim, Proveta relaciona todas essas questões com uma frase que seu pai dizia e lhe dirigiu a carreira musical: “eu tinha uns dez anos e tinha destreza já no instrumento. Eu fazia os solos e ele dizia ‘tem muita informação aí, tem que tirar umas coisas’ e eu retrucava – ‘mas não é o que você falou?’  Aí ele soltava: ‘o que você quer fazer não tem nada a ver com o que tem de ser feito’. Você não pode fazer parte se não sabe o que acontece em volta. As pessoas de uma certa forma querem fazer o que acham que querem, mas é preciso resgatar para consertar”, finaliza.

Nailor Proveta, arranjador do disco "É Carnaval".

OUÇA O DISCO "É CARNAVAL" AGORA: